Repertório·9 min

Repertório autoral vs. repertório de bolso: o que mudou na Cartilha 2025

A Cartilha do INEP 2025 mudou o jogo do repertório na redação ENEM. Entenda a diferença entre repertório autoral e de bolso, com exemplos práticos pra C2 nota 200.

Se você ainda decora citação de filósofo pra colar em qualquer tema da redação ENEM, 2025 mudou o jogo. A Cartilha do Participante do INEP atualizou o critério da Competência 2 (C2) — agora ela diferencia claramente repertório autoral de repertório de bolso, e o segundo já não garante mais nota 200.

Neste post, vou destrinchar a mudança, mostrar exemplos práticos de cada tipo e dar 3 passos pra transformar qualquer citação decorada em repertório que pontua.

O que é repertório de bolso (e por que ele tá perdendo força)

Repertório de bolso é aquela citação genérica que você decora pra usar em qualquer redação:

  • "Como afirmou Aristóteles, o homem é um animal político..."
  • "Segundo Zygmunt Bauman, vivemos na modernidade líquida..."
  • "Conforme a Constituição Federal de 1988, artigo 5º..."

O problema não é o autor — é o uso descolado do tema. O corretor lê e percebe que você poderia ter usado a mesma frase em qualquer redação dos últimos 5 anos. Não articula. Não problematiza. Só decora.

A Cartilha 2025 reforça que repertório precisa ser produtivo — ou seja, usado pra construir o argumento, não pra decorar a introdução.

O que é repertório autoral

Repertório autoral é quando você demonstra leitura própria do tema — usa uma referência que faça sentido específico pro recorte daquela redação, articulada de forma que o corretor perceba que você entendeu o conteúdo, não só decorou o nome.

Exemplos do mesmo Bauman, mas autoral:

"A noção de modernidade líquida, desenvolvida por Bauman em Vida para Consumo (2008), ajuda a entender por que tendências de comportamento nas redes sociais se esgotam em semanas — relações, identidades e até causas sociais são tratadas como produtos descartáveis."

Note a diferença:

  • Cita a obra específica (Vida para Consumo)
  • Indica o ano (2008)
  • Articula com o tema (esgotamento de tendências nas redes)
  • Aprofunda com exemplo concreto (causas sociais como produtos)

Isso é repertório autoral. O corretor lê e sabe que você leu — ou pelo menos entendeu — o conceito.

A regra de ouro: produtivo, pertinente, legitimado

A Cartilha INEP 2025 estabelece 3 atributos pra repertório nota 200:

Atributo O que significa Como demonstrar
Pertinente Conecta diretamente com o tema Não force Aristóteles num tema sobre redes sociais. Use referência adequada ao recorte.
Produtivo Constrói o argumento, não decora Use o repertório pra explicar uma causa, consequência ou solução.
Legitimado Fonte confiável e verificável Filosofia, sociologia, história, ciência, literatura canônica, dados oficiais.

3 passos pra transformar bolso em autoral

Passo 1 — Especifique a obra e o ano

❌ Bolso: "Segundo Foucault, o poder está em todo lugar..."

✅ Autoral: "Em Vigiar e Punir (1975), Michel Foucault descreve como sociedades modernas substituíram a punição física pela vigilância contínua..."

A especificidade já te tira do clube dos que decoraram só o nome.

Passo 2 — Articule com o recorte do tema

❌ Bolso (tema sobre desinformação): "Como dizia Sócrates, só sei que nada sei..."

✅ Autoral: "O conceito de pós-verdade, popularizado por Lee McIntyre no livro homônimo (2018), explica por que, em ambientes de desinformação, fatos importam menos que crenças pessoais — fenômeno agravado pelo desenho algorítmico das redes sociais."

A segunda versão pega o tema (desinformação) e usa a referência pra explicar um mecanismo específico (por que fatos perdem peso).

Passo 3 — Aprofunde com exemplo concreto

Não pare na citação. Estenda com um caso real:

"Em O Cansaço de Si Mesmo (2010), Byung-Chul Han argumenta que a sociedade do desempenho substituiu a disciplina externa pela autoexploração — fenômeno visível na escalada de transtornos de ansiedade entre jovens brasileiros, que cresceu 200% entre 2019 e 2024 segundo a Fiocruz."

Repare: começou com filósofo contemporâneo, terminou com dado oficial. Dois repertórios em uma mesma articulação. Isso é nota 200 em C2.

Banco de repertório autoral por área (use com cabeça)

Não é pra decorar — é pra se inspirar e ler as obras. Repertório só funciona se você entender o que tá citando.

Tecnologia e sociedade

  • Byung-Chul Han — Sociedade do Cansaço (2010), No Enxame (2013)
  • Shoshana Zuboff — A Era do Capitalismo de Vigilância (2019)
  • Yuval Harari — 21 Lições para o Século 21 (2018)

Meio ambiente

  • Ailton Krenak — Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019)
  • Davi Kopenawa — A Queda do Céu (2015)
  • Bruno Latour — Onde Aterrar? (2017)

Trabalho e economia

  • Ricardo Antunes — O Privilégio da Servidão (2018)
  • David Graeber — Bullshit Jobs (2018)
  • Mariana Mazzucato — O Estado Empreendedor (2013)

Cultura e identidade

  • Djamila Ribeiro — Pequeno Manual Antirracista (2019)
  • Lélia Gonzalez — Por um Feminismo Afro-Latino-Americano (2020, póstumo)
  • Silvio Almeida — Racismo Estrutural (2018)

Educação

  • Paulo Freire — Pedagogia do Oprimido (1968), Pedagogia da Autonomia (1996)
  • bell hooks — Ensinando a Transgredir (1994)

O erro fatal: forçar repertório que não cabe

Vi corretor descontando C2 de 200 pra 120 por incoerência de repertório — o aluno colou Foucault num tema sobre cyberbullying, mas usou só pra dizer "o poder está em todo lugar". Não articulou nada. O corretor entendeu que o repertório era decorado, não digerido.

Regra simples: se você não consegue explicar o que o autor defende em 3 linhas, não cite o autor. Use um dado, um caso histórico, uma referência que você de fato entende.

Como treinar repertório autoral

  1. Escolha 5 obras de áreas diferentes (uma por área temática do ENEM).
  2. Leia ou estude bons resumos — não decora frase, entende o argumento central.
  3. Para cada obra, escreva 1 parágrafo aplicando ao tema fictício. Treine articulação.
  4. Cruze repertórios — uma redação forte usa 2 ou 3 referências articuladas, não uma colada na introdução.
  5. Peça correção — no Studyrats, a IA identifica repertório produtivo vs decorado nas suas redações e sugere ajustes pontuais.

Resumo

Repertório de bolso ainda funciona pra tirar 120-160 em C2. Mas pra bater 200 consistente, você precisa demonstrar que leu, entendeu e sabe articular. A Cartilha 2025 deixa isso explícito — e os corretores foram treinados pra identificar a diferença.

Comece pelos seus temas mais fortes, escolha 5 obras que você realmente vai estudar, e treine a articulação em redações reais. Em 4-6 semanas, sua C2 sobe.

Bora aplicar isso na sua redação?

Envia sua redação pro Stuart e descubra sua nota real nas 5 competências.